A pseudo superioridade do ser humano reside em sua capacidade de raciocinar e de comunicar seu raciocínio aos demais. Ora, se tantas vezes falhamos em conseguir transmitir o que pensamos e sentimos, não somos tão superiores, não é mesmo? A história a seguir mostra como é importante lembrarmos-nos do quanto somos seres falhos, para só assim, conseguirmos perdoar os defeitos do próximo.
Conta um pescador de sonhos, que em um vilarejo chamado Sábado, havia dois amigos que compartilhavam da cumplicidade de irmãos. Um deles, o Mudo, era verborrágico, inconseqüente e infantil. Já o Surdo era sereno, companheiro e introspectivo. Não se sabe como dois diferentes poderiam ser tão iguais.
Cada um possuía seus defeitos, mas eles só viam suas qualidades, característica comum aos habitantes de Sábado. Um belo dia, o Mudo percebeu que o Surdo estava enveredando por um caminho tortuoso. Tratava-se de uma estrada que levava a uma terrível besta chamada Hiato, conhecida por lançar maldições sobre as amizades mais sinceras, com o intuito de devorá-las.
O Mudo decidiu aconselhar o surdo a não seguir por trecho tão perigoso:
- irmão, não siga por aí, sei que você vai se machucar!
- obrigada pelo conselho, irmão!
O Surdo, porém, com toda sua serenidade e gratidão, continuava seguindo pela estrada tortuosa. O Mudo, desesperado ao ver seu irmão agindo daquela forma, gritava e esbravejava, sem ser ouvido... Pois, seu único desejo era que ele fosse feliz.
Contaminado pelo veneno de Hiato, que pairava no ar, o Surdo deixou de ouvir seu irmão, interpretando absolutamente tudo que ele dizia, de forma equivocada.
Os dois irmãos distanciavam-se cada vez mais, um por preocupar-se demais, e o outro, por não compreender as intenções cuidadosas do amigo. Aos olhos do Surdo, o Mudo havia se transformado em uma pessoa grossa e inconveniente. E o amigo que tentara ajudar, percebia que talvez tivesse agido mal, mas com isso, sentia-se cada vez mais abandonado. Conforme a mágoa crescia, crescia a força de Hiato, que se alimentava de corações feridos.
Diz o pescador de sonhos, que a culpa era dos dois. Um não soube se expressar e com isso, confortar e cuidar, enquanto o outro, não teve humildade para ouvir e aprender.
Essa história se repete todas as vezes em que dois amigos não se compreendem e agem como dois estranhos. No vilarejo de Sábado, ficou a lição de sempre sermos humildes para reconhecermos nossas fraquezas e estendermos as mãos e os ouvidos para o próximo.